Espaço e economia
- Leandro Bruno Santos
- 12 de mai. de 2017
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O papel do espaço na produção e no consumo aparece nas primeiras reflexões de pensadores da economia nos século XVII e XVIII, antes mesmo da sistematização da Economia e da Geografia como campos disciplinares. O desenvolvimento do conhecimento econômico até finais do século XVIII baseou-se na observação do espaço na vida econômica. William Petty e Sébastien Le Prestre de Vauban, já no século XVII, refletiram sobre a riqueza e a produção por meio da observação da paisagem e da realidade geográfica. No século seguinte, Richard Cantillon e François Quesnay analisaram os circuitos da produção e da troca tendo como ênfase as áreas rurais e urbanas. É com Adam Smith que se inaugurou uma nova fase na qual a dimensão espacial perdeu importância para o predomínio dos mecanismos econômicos, amplamente conhecidos como livre mercado, oferta e procura, iniciativas individuais.
Durante todo o século XIX até os anos 1930, a Economia e a Geografia conheceram o desenvolvimento paralelo de campos disciplinares marcados pela ausência da preocupação com espaço. Na Economia, ganharam importância as Teorias das relações econômicas internacionais e a da Economia Espacial. A primeira buscou compreender o livre comércio e nivelamento dos preços, a especialização e a ausência de progresso técnico (economias de escala e externas). A segunda analisou as leis de localização dos empreendimentos econômicos, o papel da distância e dos transportes sobre o nível de lucros etc. Na Geografia, a Geografia Econômica esteve preocupada com a descrição da diferenciação econômica das regiões, a análise da produção e dos fluxos, além de incipiente preocupação com a localização das atividades.
Após um longo período de isolamento da economia e da própria geografia, por conta da ênfase nas descrições das atividades econômicas, fluxos e mercados, a Geografia Econômica aproximou-se da Economia nos anos 1950. Nesse momento, a própria economia e seu viés marginalista enfrentavam pesados questionamentos por sua dificuldade de explicar a grande crise do modo capitalista de produção nos anos 1930. É um período em que avançam as preocupações em torno do desenvolvimento, das decisões dos agentes econômicos etc., com maior importância da macroeconomia no âmbito dos estudos econômicos.
A Geografia Econômica aproximou-se da Economia com os estudos das decisões dos agentes e da polarização. Muitos estudos geográficos trataram do desenvolvimento regional e nacional com a constatação do desenvolvimento desigual e desenvolvimento/retomada de ferramentas teóricas – pólos de desenvolvimento, economias externas, papel da informação e da comunicação. O viés da descrição perdeu relevância nos estudos e ocorreu uma maior aproximação com as reflexões teóricas desenvolvidas no âmbito da economia espacial.
A partir dos anos 1960, com a crise nas economias centrais, emergiram fortes críticas em torno da reforma do sistema capitalista e o papel do Estado. Nesse bojo, surgiram desde concepções teóricas (comportamental) que criticavam o homo economicus e enfatizavam a importância das decisões humanas, como abordagem monetaristas (análises econométricas, mercado como regulador) e estruturalistas (relações sociais, estrutura das economias). A Geografia Econômica conheceu um avanço de abordagens comportamentais na explicação da localização das atividades econômicas e de perspectivas mais críticas - estruturalista/economia política marxista – com ênfase nas relações sociais de produção e na estrutura econômica das economias capitalistas
Nas últimas décadas do século XX, com a aceleração de toda sorte de fluxos (pessoas, mercadorias, informações), emergiu um novo período denominado de globalização ou mundialização, dependendo da perspectiva teórica que se adote. É um momento de revolução dos transportes e das comunicações, aumento exponencial da circulação e ameaça ecológica, diminuição das barreiras entre Geografia Econômica e Economia, valorização das virtualidades dos lugares, alargamento da concepção de vida econômica, emergência de problemas como comércio, cidades globais, migração e localismos (apelos identitários, separatismo etc.).
Com essas profundas transformações, a Geografia Econômica assumiu maior relevância, pela sua capacidade de explicar, de um lado, a influência da cultura no consumo, os circuitos econômicos solidários, a flexibilidade e a metropolização etc. e, de outro lado, aportar elementos para entender a emergência da Geoeconomia (estratégias espaciais dos agentes econômicos nas várias escalas espaciais). Nesse bojo, surgiu o que denominamos de Nova geografia econômica (NGE), que é compreendida de maneira diferente na Geografia e na Economia. Paul Krugman, economista laureado pelo Prêmio Nobel, entende a NGE como a localização da produção no espaço, enquanto os geógrafos estudam a virada cultural, utilizam teorias múltiplas, defendem a existência – no plural – de economias e suas geografias econômicas.